Tem uma música que cantavam na igreja que dizia mais ou menos assim: "Um dia Deus olhou para essa nação e por ela se apaixonou de uma forma especial..." É de chorar, mas enfim, a ciência descreve a paixão como um acontecimento químico no cérebro, semelhante aos vícios. É algo que altera a nossa percepção da realidade, nos torna dependentes do objeto de nossa paixão, criamos qualidades que nem existem, elevamos as pessoas a um patamar que muitas vezes elas nem merecem, porque quando a paixão que é temporária passa, vemos tudo como é. Paixão tem a ver com Eros, com o que atrai nosso corpo e enebria a carne, o físico, o palpável, semelhantemente às doenças do corpo. Deus não se apaixona por ninguém, por motivos óbvios, nem se encantaria por seres que Ele mesmo destituiu e encerrou no pecado, para usar de misericórdia através do Filho, sua perfeição. É um verdadeiro absurdo o que se canta em igrejas, mesmo com todas a liberdade poética, acabam provocando um enxurrada de blasfêmias que só alimenta a ignorância.
Deus é amor e isso não tem nada a ver com sentimentos, embora seja muito comum diminuir Deus a altura de nossa mediocridade, humanizando-o. Alguns pra justificar a falta de amor nos grupos religiosos ainda dizem que Deus é amor mas também é justiça. É impossível definir Deus dentro de nossos conceitos, por isso tudo o que se pode conhecer de Deus está revelado em Cristo.
A Bíblia diz que Deus é Justo Juiz, misericordioso, verdadeiro, enfim, mas quando João diz que se não amamos quem vemos, não seremos capazes de amar Deus que não vemos, porque precisamos refletir sua essência porque Deus é amor, não está falando de sentimentos, de paixões, de interesses em comum, mas está falando justamente de algo como a seiva que mantém uma planta viva, ou o sangue que mantém um corpo funcionando, Amor é o que mantém o espírito do homem ligado a Deus. Você só ama o próximo como a ti mesmo, se a essência de Deus transcendeu até você.
É ágape, uma decisão consciente, incondicional e inesgotável. Fonte que jorra de dentro de todos que entenderam que fomos amados desde antes da fundação do mundo, porque amor é a essência de Deus. É o que Ele é. Por causa do amor, Ele se esvazia e nos resgata de novo para si, não porque somos apaixonantes, mas porque Ele não nega a si mesmo.
Eros tem relação com a carne e dura bem pouco. Philos tem relação com a alma, as trocas de afinidades, é o que nos faz aproximar de uns e nos afastar de outros, é identificação, é o que une grupos e também causa aversão a quem pensa o contrário. Não temos nada a acrescentar a Deus, nem dar a Ele algo que não tenha, nem completar algo que esteja faltando, nem mesmo conhecê -lo se a Graça primeiro não abrir nosso coração. Então também não é de philos que João está falando.
Mas à medida que intuimos este amor como essência e ele nos aperfeiçoa em Cristo, deixamos de ser como sino barulhento retinindo e passamos a viver o amor de 1 Co 13, onde é o amor que nos dá a visão, a motivação, o conhecimento, a sabedoria, o fruto do Espírito, a noção de pertencer a Deus, tudo o que envolve a fé e a esperança no porvir, define nossas relações, como agimos com o outro e como respondemos ao que nos acontece, etc.
Entre a fé que é o caminho, a esperança que se apoia na verdade e o amor que é vida, o maior deles é o amor, porque é a vida de Deus em nós por meio de Cristo.
De fato quando entendemos isto, vemos o que falta de espiritual naqueles que insistem em cultivar o próprio ego ao invés de matá-lo. Ao passo que aquele que nega a si mesmo para seguir Jesus, embora carregue também sua Cruz, tem a paz de estar reconciliado, que excede o entendimento comum, mas para o que crê, é tudo o que importa.
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