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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Sonhos antes da morte


Ela me acordou no meio da noite, sussurrando meu nome pra não acordar as outras pacientes. Virou para a poltrona onde eu estava, parecia ter pressa de contar o que havia acabado de sonhar. Ela dizia: preciso contar agora, porque não quero esquecer nenhum detalhe. O que acabei de sonhar, só pode ter algum significado, mas eu não consigo interpretar, só sei que preciso te contar...

E eu mal acomodada, porém muito sonolenta, ia despertando aos poucos, conforme ela contava o sonho com uma riqueza impressionante de detalhes.

"Você estava nesta mesma poltrona lendo uma Bíblia de capa preta. Entrou uma mulher aqui no quarto e te agrediu, jogou sua Bíblia no chão, espalhou seus papéis junto com um pó amarelado pelo chão. Haviam outras pessoas com ela, que a apoiavam e não deixavam você fotografar aquela cena para não a denunciar. Você estava humilhada e chorando, pegou a Bíblia no chão, limpou e a abraçou. Quando viu que você não reagia, a mulher começou a arder em chamas de baixo para cima e de você começou a sair refrigério. Conforme você tocava nela, o fogo ia apagando. Era como se o que saía de você, fosse muito maior do que o que estava nela."

E eu achando graça da importância que ela estava dando ao sonho, só disse a ela o quanto sou grata por padecer tantas situações por levar tão à sério a pregação da sã doutrina. Sem saber ela estava confirmando o que já sei há muito tempo. Esta é a razão da minha vida e se não fosse pra sangrar neste mundo por causa de Cristo, melhor nem tivesse nascido.

Minha mãe estava muito sensível nos últimos dias. Coisas que agora lembro com muita saudade.
...

O Fogo Não Me Consumiu
Eles vieram como tempestade,
com dedos apontados e olhos em fúria.
Jogaram ao chão aquilo que eu guardava no peito,
como se pudessem apagar o que arde em silêncio.
Eu chorei.
Não chorei fraco.
Chorei rasgando por dentro,
com o rosto molhado de humilhação
e os joelhos marcados pelo pó.
O fogo subiu.
Subiu pelas bordas do livro,
subiu como acusação antiga,
como palavras duras que queimam mais que brasas.
Achei que me alcançaria.
Mas de dentro de mim
não saiu grito —
saiu refrigério.
Uma brisa invisível,
um sopro que não era meu,
uma névoa mansa que abraçou as chamas
e disse: “Até aqui.”
Eles gritavam.
Eu chorava.
E mesmo assim,
o que estava em mim
era mais forte
do que o que estava neles.
O fogo não me consumiu.
Porque o que me habita
não queima —
acalma.

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