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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Tempestades



Sou o tipo de pessoa que vê o lado bom de tudo, até quando alguém me faz o mal. Tem horas que reflito sobre a vida que tive até chegar aqui e de certa forma sei que não faria nada diferente, porque olho para minhas crianças e sei que se não fosse assim, não teria eles disputando minha atenção e declarando um amor tão puro.

Quando conheci meu primeiro namorado, ele achou que teria mais uma aventura e se deparou com uma menina ingênua e infantilizada para os 16 anos que tinha. Logo estava inserido na minha família e vivendo um dilema. Eu apaixonada e ele traindo a outra namorada comigo. Como tudo evoluiu muito rápido, ele se viu na obrigação de contar a verdade. 

Foi o primeiro golpe da minha vida. O primeiro amor, primeiro homem, primeiro tudo, terminou comigo porque o quartel iria mandá-lo para São Paulo e ele pretendia levar a outra moça com ele. Quase morri de desgosto, ele ainda foi me visitar algumas vezes, sabe-se lá por quê... Num último encontro ele disse que iria casar e no próximo ano se mudaria. Eu sabia que penaria um longo período até esquecer.

Um ano depois conheci o pai do meu filho na porta do colégio. Ele foi conhecer alguém que naquele dia não foi e acabou entrando na minha vida. Eu resolvi dar essa chance ao amor, não podia desistir da vida aos 18.

O que era demonstração de afeto, logo virou um relacionamento abusivo, controlador, ciumento, possessivo, me afastando das amizades, cerceando minha liberdade, me tirando dos lugares que eu frequentava, chantageando, intimidando e ameaçando nas entrelinhas.

Quando o relacionamento estava bastante afetado, descobri a gravidez. Minha mãe, talvez por perceber que eu estava entrando numa enrascada, disse que se eu decidisse tirar a criança, que ela me apoiaria, me ajudaria a fazer isso... Interrompi, pra mim isso não era uma opção. Ela me disse:"E se ele não quiser?" E eu: "Se ele não quiser ser pai, eu serei mãe, não vou fazer nada contra meu filho." E ela disse:"Então vou te ajudar nisso."

Aos trancos e barrancos, consegui levar o relacionamento até meu filho completar 10 meses. Eu já não tinha amigos, nem estudava mais, estava doente no corpo e na alma, refém de um cara que ao mesmo tempo que me hostilizava, achava que eu pertencia a ele. Era agressivo, vivia cheio de mulher, não assumia responsabilidade com o filho e ainda vivia encostado em nós. Consegui colocar um ponto final nisso e para me punir, ele passou a ignorar o filho.

Até que num último encontro, ele foi bastante agressivo, tentando tirar meu bebê dos meus braços, gritando e ameaçando fazer "uma besteira " comigo se me visse com alguém. Consegui me desvencilhar e tomei a decisão de mudar de estado com minha família. Eles estavam de mudança para BH e eu não me sentia segura em ficar no Rio.

Ele só descobriu quando resolveu nos procurar meses depois. E lutou bons 3 anos para rever o filho. Depois de reconhecer os erros, permiti que eles tivessem uma construção, pelo menos uma vez por ano eles se encontravam, primeiro na minha presença, depois conforme foi crescendo, meu filho passava as férias com ele. E ele sempre tentando voltar comigo. Mas como não assumia responsabilidades financeiras, só prometia o que nunca cumpriu, eu também nunca considerei isso.

Quando eu estava com 32 e meu filho com 12, ele disse que estava se separando, que a gente tinha que tentar de novo, que ele era uma nova pessoa, que estava maduro, que nosso filho merecia viver isso, que enfim... Sempre me amou, nunca me esqueceu e toda aquela ladainha que a gente acaba querendo acreditar. 

Acreditei, já que ele insistia há 10 anos. Não que eu ainda sentisse, estava confusa. Mais pela ideia do recomeço, da restauração, da nova chance, acreditando que seria diferente porque já éramos adultos, pais, etc. Cedi.

Ele voltou para o Rio segundo ele, para arrumar a mudança para vir. Nesse meio tempo descobri uma nova gravidez. Receosa contei pra ele, que desfez em 10 minutos tudo o que tinha prometido em uma semana. Era tudo lábia, devaneio da minha parte. Ele me enganou e disse que eu teria que tirar esse filho, que ele não queria ser pai, que não era uma criança mas uma massa... Quase morri de desgosto, vergonha, arrependimento, queria cavar um buraco e me enterrar.

Bom, não quis mais contato com ele, nem com as pessoas que tentavam a todo custo interferir. Na minha cabeça, se fui mulher para assumir um filho aos 19 anos quando não tinha nada, faria tudo de novo por este também, porque agora eu era adulta, tinha casa e uma cabeça melhor. Mas não foi assim que aconteceu. Acabei perdendo este bebê em casa, o segurei na minha mão e quase enlouqueci de tanta tristeza. 

Depois entendi o que deveria aprender nessa situação, tudo mudou a partir desse episódio, onde passei a me enxergar com outro olhar e ver a graça de Deus como algo que age e nos transforma o tempo todo.

Esse cara foi tudo de ruim que poderia ter acontecido para me impedir de tantas coisas, ao mesmo tempo que me deu meu filho e meus netos, que são minha vida. Anos depois ele morreu sozinho e foi achado quase uma semana depois. Antes, foi desgosto pra muita gente.

São experiências terríveis? São. Mas a vida da gente é cheia de percalços, adversidades, barreiras para transpor que vão calejando e fortalecendo. Hoje não é qualquer coisa que me derruba e alguns baques nem doem mais. Parece que cheguei no ápice e o que não me destruiu deu forças, sabe?

Olho minhas crianças dizendo, "te amo mais do que você me ama". Eu digo: "impossível, meu amor é infinito, vocês são tudo pra mim".  E vejo que Deus me ama através deles.

As coisas para as outras pessoas parecem ter sido mais fáceis, mais naturais, mais leves, pra mim não foi. A vida inteira enfrentei desafios pesados em todas as áreas. Mas em cada um deles me apeguei a Deus e Ele me levantou, fortaleceu, revigorou e ajudou a vencer.

As amenidades mantém as pessoas fracas, sem profundidade, inexperientes e mornas. Pra ser quem sou, tive que conhecer a altura, a profundidade, a largura a longitude... E eu sinto que tirei proveito de tudo. 

Até porquê o bem potencializa o mal e o mal potencializa o bem. Um só existe por causa do outro. As coisas acontecem como tem que ser. Escaladas e declives fazem parte dessa caminhada. Linear, só depois da morte.

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