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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A camisa verde e amarela

Quem precisa de direitos trabalhistas no Brasil não é uma minoria. Quem depende de salário para viver não é uma minoria. Quem precisa de escola pública, saúde pública, aposentadoria, proteção social, salário digno e condições minimamente justas de trabalho não é uma minoria. São milhões.

E, ainda assim, não é raro encontrar trabalhadores defendendo políticas que podem reduzir justamente os mecanismos de proteção dos quais eles próprios dependem, enquanto acreditam estar lutando contra o inimigo.

É aí que a política deixa de ser sobre interesses concretos e passa a ser sobre identidade.

O trabalhador veste a camisa verde e amarela e acredita estar participando de uma grande missão nacional, enquanto interesses econômicos muito diferentes dos seus encontram nele um eleitor disposto a defendê-los.

Não porque seja necessariamente ignorante.
Mas porque foi convencido de que a disputa principal não é entre interesses econômicos, direitos e projetos de sociedade. É entre o bem e o mal.

E quando uma disputa política é transformada numa guerra entre o bem e o mal, basta escolher quem representa o bem. O resto deixa de precisar ser examinado.

É assim que alguém pode abrir mão de direitos que beneficiam a própria classe social para defender interesses que não são os seus.

E é assim também que a religião pode ser transformada em instrumento político.

O mesmo mecanismo que transforma o eleitor em massa de manobra pode transformar o fiel em massa de manobra.

Basta colocar Deus de um lado e o demônio do outro. De um lado, os “homens de Deus”. Do outro, aqueles que precisam ser demonizados.

E o indivíduo já não precisa perguntar: O que esse líder está fazendo com o meu dinheiro? Quem está se beneficiando disso? Isso está realmente de acordo com aquilo que Jesus ensinou?

Por que aquilo que é apresentado como vontade de Deus favorece justamente quem já possui poder?

Porque a demonização dispensa a reflexão. E o discurso religioso, quando usado dessa maneira, oferece uma coisa perigosíssima: certeza sem exame de consciência.

Não é preciso compreender política. Não é preciso compreender economia. Não é preciso conhecer a Bíblia. Basta acreditar que está do lado certo.

E talvez seja justamente por isso que a figura de Jesus seja tão incômoda.

Porque ele não parece ter escolhido os poderosos como centro de sua mesa. Sentava-se com gente desprezada, rejeitada, pobre, doente, pecadora, marginalizada.

Não porque pobreza fosse virtude ou porque riqueza fosse automaticamente pecado. Mas porque a justiça começa justamente quando enxergamos quem costuma ser invisível.

Jesus não parecia particularmente impressionado com pessoas que se consideravam justas. Pelo contrário. Sua crítica mais dura frequentemente encontrava aqueles que conheciam a religião, conheciam a Lei, conheciam os códigos morais  e, ainda assim, negligenciavam aquilo que era mais importante.

A justiça. A misericórdia. O amor.

Talvez esse seja o grande problema de uma fé que precisa constantemente encontrar inimigos: ela pode passar tanto tempo procurando quem está do lado do mal que esquece de perguntar se ainda está do lado do amor.

Porque gente religiosa pode ser muito rigorosa com o pecado dos outros e extremamente generosa com a própria falta de justiça.

Pode defender a família e abandonar o trabalhador. Pode falar de Deus e explorar o próximo. Pode condenar o pecador e enriquecer o pregador. Pode levantar a Bíblia acima da cabeça enquanto passa por cima daquilo que a própria Bíblia chama de justiça.

E, no fim, pode até acreditar sinceramente que está lutando contra o mal. Enquanto o mal agradece, sentado confortavelmente dentro do discurso que o protege.

Mulher sempre oprimida

Antigamente, a sociedade cobrava recato. Uma mulher "direita" deveria se casar virgem, não podia se descasar mesmo que fosse infeliz. Deveria cuidar de sua família pessoalmente, trabalhar fora muitas vezes era mal visto, porque a educação dos filhos acabava sendo terceirizada. Então o marido tinha a responsabilidade de manter a família, era o chefe da família, todos o reverenciavam, mesmo que não fosse bom.

E a mulher, sempre submissa, acatava o que a cultura exigia dela. Não trabalhava, não influenciava, não se separava e se conformava em ser esposa, mãe e dona de casa.

Se alguma moça "se perdia" antes do casamento, o homem se sentia na obrigação de assumir o erro. Casar às pressas era o reparo que a sociedade esperava, para que a mulher não fosse vista como uma qualquer.

Com os movimentos de liberdade feminina, veio também a liberdade sexual. Muitas mulheres viram no desquite e mais tarde no divórcio, a oportunidade de recomeçar suas vidas, com outros parceiros ou sozinhas mesmo. Mas a responsabilidade do lar ficou dividida e a participação do pai na criação dos filhos, muitas vezes ficou resumida à pensão.

Os tempos mudaram e hoje a mulher conquistou liberdade total com relação às suas escolhas. Muitas escolhem não se casar e tem filhos com vários parceiros. 

Os homens por sua vez, já não se sentem na obrigação de assumir ninguém. E isso gera um novo combo de problemas: filhos abandonados pelos pais, mães solos sobrecarregadas, crianças carentes de estrutura familiar, educação terceirizada porque as mães não estão por perto porque tem que trabalhar.

Se por um lado a mulher se vê livre da opressão do patriarcado, por outro lado está assumindo sozinha a responsabilidade de formar seus filhos e a sociedade do futuro. Os homens estão cada vez mais fracos e irrelevantes na formação das famílias.

Claro que no meio mais conservador, o modelo antigo ainda acontece, mas entre uma realidade e outra, a mulher está sempre em desvantagem.

A mulher, de qualquer forma, paga um preço só por ser mulher. Antes, pagava com a liberdade.
Hoje, muitas vezes paga com a sobrecarga.

A mulher passou a estudar, trabalhar, votar, escolher se queria casar, separar-se e reconstruir a própria vida. O casamento deixou de ser uma sentença e passou a ser uma escolha. E isso foi uma conquista real.

Mas liberdade trouxe consigo uma contradição que ainda não resolvemos. A mulher deixou de ser obrigada a carregar o homem, mas continuou frequentemente obrigada a carregar os filhos.

A divisão dos papéis mudou, mas a divisão das responsabilidades nem sempre acompanhou a mudança.

O pai que antes era cobrado como provedor pode hoje simplesmente pagar uma pensão e considerar encerrada sua participação. A mãe, por outro lado, continua responsável por levar à escola, acompanhar tarefa, marcar consulta, cuidar da doença, organizar a rotina, educar, trabalhar e pagar as contas.

E assim surgiu uma nova forma de desigualdade. A mulher conquistou o direito de sair de um casamento, mas muitas vezes não conquistou o direito de dividir igualmente as consequências de uma família desfeita.

Também não podemos romantizar a família antiga. Havia mulheres vivendo em silêncio, crianças crescendo em casas violentas e homens ocupando o lugar de autoridade sem necessariamente exercer responsabilidade.

Mas também não precisamos romantizar o presente. Uma sociedade não se torna mais livre simplesmente porque retirou as obrigações de uns. Ela se torna mais justa quando distribui responsabilidades entre todos.

A mulher não precisa voltar para a cozinha para que o homem volte a ocupar seu lugar. O homem não precisa voltar a ser o soberano da casa para ser pai. E a criança não deveria pagar o preço da liberdade dos adultos.

Talvez o que precisemos construir não seja o retorno ao patriarcado nem a celebração de uma independência em que cada um cuida apenas de si.

Precisamos de responsabilidade compartilhada.
Mulheres livres para escolher. Homens responsáveis por suas escolhas. Pais presentes na formação dos filhos. Mães que não precisem provar seu valor pelo sacrifício.

E famílias nas quais amor não seja sinônimo de submissão, nem liberdade seja sinônimo de ausência.

Porque, no fim, talvez a grande questão não seja devolver à mulher o lugar que ela ocupava.

É finalmente permitir que ela ocupe o lugar que escolher, sem ter que ser punida por isso.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Francisca

Num tempo em que era imoral uma mulher colocar fim no casamento, ela dizia amém pra tudo. Para o abuso, a violência, a fome, as doenças venéreas que ele trazia dos portos onde pescava. 

O tal "Zé bom na faca" era temido não apenas fora, como dentro de casa, quando chegava bêbado, jogando comida no chão para os meninos não comerem, porque para ele, todos eram vagabundos.

À noite, sob a luz bruxuleante, ele elegia um dos meninos para atormentar com um olhar fixo, enquanto amolava suas facas. Iam dormir aterrorizados, se é que dormiam até ele sair de novo para sumir pelos portos.

Ela mantinha a casa com suas costuras. Conforme os filhos cresciam, começavam a trabalhar e já caiam no mundo. Errando, acertando, cada um fez o que conseguiu.

A única que nunca apanhou foi minha mãe, que era a caçula das meninas, abaixo dela só tinha mais um, porque o último nasceu prematuro e o Zé jogou ele no esgoto depois que morreu.

Naquele inferno, minha avó não sabia o que era paz, não tinha autonomia pra tomar uma atitude, apenas aceitava sua triste sina. Filhos que cresceram feridos e mais tarde se tornaram agressivos em suas próprias famílias.

Francisca parecia ter se conformado. Ele trocou as terras dela no Espírito Santo por uma casinha simples no subúrbio do Rio de Janeiro, depois trocou a casinha por um barraco no alto de um morro, porque era mais perto dos portos. Ela não podia opinar, só aceitar.

E numa dessas brigas em casa, onde ele xingava e agredia os filhos, minha mãe aos 12 anos, disse que estava saindo de casa. Que não queria mais viver naquele inferno. Diante do desespero da minha avó, ela disse que Francisca ia ter que escolher entre ela e o pai. Só assim Zé bom na faca teve sua sentença decretada. Teve que sumir no mundo.

Acabou o tormento, a fome não. Mulher separada era mal vista... As crianças ajudavam como podiam.

Minha mãe começou a trabalhar aos 14 anos, isso a fez crescer amargurada por não ter tido infância e adolescência. Tinha a responsabilidade de ajudar a mãe com dois irmãos, os outros já estavam casados.

Me lembro ainda dos dois cômodos de estuque e do quarto de madeira. À custa de muita costura, vó Chica construiu uma boa casa, uma caixa d'água bem grande que servia inclusive à vizinhança.

Mais tarde sofreu de câncer, mas ainda assim realizou muitas coisas, ajudou muita gente, me ensinou o Evangelho mesmo sem saber ler, foi guerreira e resignada até o final.

A resignação dela não significava fraqueza. Significa que ela sobreviveu dentro das possibilidades que aquele tempo lhe oferecia.

O Zé morreu cego num asilo, nenhum filho o acolheu em casa.

E talvez eu tenha demorado bastante tempo para entender, que a mulher que me ensinou sobre o amor de Deus, passou a vida em função de um homem que não sabia amar.

Algumas violências só terminam quando a vítima entende e deixa de estar disponível para quem a pratica. Isso aprendi com a história de vó Chica. Sobrevivência às vezes exige fechar a porta.

Ela viveu num tempo onde não podia escolher quem permanecia em sua casa, eu posso.

Honro a vida de quem veio antes, justamente permitindo que fique, apenas quem me faça o bem. Não posso desperdiçar a liberdade que ela não tinha, mas eu tenho.




segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Destoando



Calada, parada, isolada... Mas a mente não pára. Buscando sempre o momento certo para agir. Incapaz de dizer qualquer coisa para preencher o vazio. Processando tudo ao redor pra saber o próximo passo.

Tem coisas que confundo. Não sei se é mais personalidade ou se é a neurodiversidade que me faz diferente. Mas sei que  minha forma de ver o mundo não é o comum.

Vejo a grande massa buscar movimento, gente, barulho, calor, toque, novidades, conexão, sintonia com iguais. Mas qualquer mudança na minha rotina já me esvai, já me esgota, muitas vezes só de imaginar já desisto.

Acho o mundo chato, fútil, vazio, barulhento, poluído demais pra querer descarregar bateria.

Então escolho, filtro, processo, observo, escuto e escolho onde invisto o que sou, onde me expresso e quem quero no meu mundo.

Não preciso me expressar em todo lugar. Não preciso preencher todo silêncio. Não preciso estar disponível para todo mundo.

Se não tenho nada relevante a dizer, permaneço calada. Isso dificulta dar manutenção nas relações, mas também ninguém me desestabiliza com dramas que não são meus.

Parece que não estou vivendo? Estou. Vida pra mim é absorver o que amplia minha alma e não apenas buscar distração para o corpo. É contemplar o mistério, deixar que  ele me atravesse e emanar o que ele provoca em mim.

Não acredito em acaso e sempre me percebi como alguém que não vai se encaixar, muitas vezes não vai pertencer e nem passar como mais uma. 

Quem demorar um pouco mais em mim, vai amar ou odiar, esquecer não.

Destoando, mas ainda cumprindo o propósito.

domingo, 4 de outubro de 2026

Reflexão sobre idolatria

Tem crente que escolhe o confronto, mas a mim parecem tão ignorantes quanto os confrontados.

Um deles chegou no grupo pedindo nome de algum ser humano que Deus tenha mandado fazer imagem de escultura. Isso porque os católicos sempre argumentam que Deus mandou fazer a serpente no poste e os querubins da Arca da aliança.

Respondi: Adão, uma imagem de escultura feita do pó da terra. "Façamos ". 

O problema não é o boneco em si, o problema é quando ele está no centro, porque qualquer coisa que está no centro, se torna deus estranho.

O que faz um idólatra, é a confiança que deposita em qualquer mediador, seja místico, seja líder religioso, seja o próprio ego como fez Adão quando desejou ser como Deus, seja qualquer figura viva ou morta que usurpa o centro de nossas vidas, lugar onde só o Eterno pode estar.

Porque o centro é o trono. E o dinheiro por exemplo, é o deus Mamom, que seduz até o mais religioso que repele as estatuetas dos cegos, mas não abre mão das próprias riquezas.

Eu acho que o argumento fica ainda mais forte se deslocar a discussão de “Deus mandou fazer ou não mandou fazer imagens?” para uma pergunta mais profunda: “O que transforma uma coisa criada em um ídolo?”

Porque, biblicamente, o próprio argumento da serpente de bronze e dos querubins já desmonta a ideia simplista de que toda representação visual seria necessariamente idolatria. O problema não é simplesmente existir uma imagem. É o lugar que ela passa a ocupar na relação do homem com Deus.

Minha resposta sobre Adão é provocativa justamente por isso. O problema não é o boneco.

“Façamos o homem à nossa imagem...” foi vontade de Deus. O problema é quando o boneco vai para o centro.

É por isso que idolatria não se resume a se ajoelhar diante de uma estátua.

Adão não precisou esculpir uma estátua para desejar ocupar o lugar de Deus.

Bastou desejar aquilo que não lhe pertencia.

E talvez uma das formas mais sofisticadas de idolatria seja justamente essa: quando o homem transforma a si mesmo em centro e passa a confiar na própria vontade, na própria interpretação e na própria grandeza como se fossem autoridade absoluta.

Porque é possível repelir estatuetas e continuar cheio de ídolos. É possível condenar o santo de barro e ajoelhar-se diante do dinheiro. É possível denunciar a devoção alheia enquanto se vive em função da própria vaidade.

É possível rejeitar um mediador religioso e transformar um pastor, um pregador ou uma instituição em autoridade que ocupa, na prática, o lugar que deveria pertencer somente ao Eterno.

Jesus chamou o dinheiro de Mamom. E Mamom não precisa de altar, vela ou estátua. Ele pode morar numa conta bancária.

Um idólatra pode sentar-se à mesa com uma Bíblia aberta. Pode frequentar cultos. Pode cantar hinos. Pode até ser alguém que passa a vida inteira combatendo as imagens dos outros.

Porque está preocupado com gesso, barro, pau e pedra, enquanto convive com seus próprios deuses estranhos.

E o trono não é lugar para a coisa criada.
É lugar do Criador


Quando pedir algo a Deus


Quando pedir algo a Deus 
Não pense que vem como chuva 
Sabedoria chega com experiências
E experiência quase sempre é com dor
Nem tudo te cabe como luva

O belo que se enxerga 
é fruto  de resignação 
porque tudo tem que conviver 
A busca, o sim e o não 

A pérola só existe porque a ostra sofreu
O vinho, porque a uva sangrou
Pureza vem com fogo
Lapidação elimina os excessos 
O leigo deseja a jóia 
O ourives sabe o processo

O topo da montanha exige sacrifício 
A linha de chegada exige esforço 
No pódio só sobe quem persevera
Às vezes crescer é no fundo do poço 

A tolice é bem mais fácil:
basta fazer corpo mole na correnteza.
Mas quando Deus concede um dom,
também pode tirar a zona de conforto.
Arranca o orgulho, desmonta as certezas

Deus não nega a quem quer o dom,
nem as bênçãos que concede.
Mas prepara primeiro o coração
do filho que busca e pede.

Expõe as nossas limitações
Nos diminui para caber no que pedimos
No destino que o caminho não mostra

Nem todo sofrimento é castigo.
Alguns são apenas resposta.






sábado, 3 de outubro de 2026

O caminho do abismo


Eu tentei dizer a ela, que apoiar erro de filho, é dar aval pra ele continuar errando. Que passar a mão na cabeça, era o mesmo que empurrar o filho de um abismo, porque a conivência não é ajuda. Mentir pra livrar das consequências é antes de tudo enganar a si mesmo.

Mas parece que tem mãe que só enxerga valor em si mesmo quando está atrás de filho em becos de boca de fumo ou catando os restos na sarjeta.

Enquanto o filho está inteiro, produzindo, feliz, a mãe não tem função. Porque é um eterno rastejar, um eterno recomeçar, um eterno perder novamente... 

Então é preciso que tudo desabe para que ela possa voltar a ser necessária... Que sina!

E o pior é avisar e ter as falas distorcidas e a motivação questionada. E agora ter que assistir as pessoas mortas, com aparência de quem vive.
 
E isso me atravessa de uma maneira difícil de explicar.

Enxergo coisas que ainda não aconteceram, minha mente reconhece os padrões, sei para onde as coisas caminham, tento avisar mas só acreditam depois do estrago.

É uma coisa muito dolorosa: não é apenas ver alguém errando; é perceber o caminho do erro antes que ele produza determinadas consequências e, ainda assim, não conseguir impedir que a pessoa caminhe até lá.

E existe uma diferença enorme entre acolher um filho e protegê-lo das consequências daquilo que ele faz.

Acolher é dizer: “Eu continuo sendo sua mãe, mesmo quando você erra.”
Conivência é dizer: “Eu vou fazer o necessário para que você não precise lidar com o que fez.”

A primeira preserva o vínculo.
A segunda pode preservar o comportamento.

Eu não estava tentando condenar os filhos dela. Estava tentando mostrar que o amor que retira todas as consequências pode, involuntariamente, colaborar com aquilo que pretende evitar.

Mas existe uma coisa que precisei aprender, talvez justamente porque demoro tanto a aprender a deixá-la nas mãos de quem pertence, não posso viver a vida de ninguém.

Talvez eu tenha desenvolvido uma capacidade muito aguçada de perceber padrões: uma sequência de pequenas coisas, comportamentos, contradições, escolhas e sinais que, isoladamente, parecem insignificantes, mas que para mim formam uma trajetória.

Só que perceber uma trajetória não significa ter poder para interrompê-la.

E talvez essa seja uma aprendizagem particularmente difícil para mim: não transformar a capacidade de perceber em responsabilidade por salvar as pessoas.

Posso avisar, explicar, até insistir uma vez ou outra. Depois disso, existe uma fronteira que não é minha.

Porque quando alguém rejeita o aviso, distorce a intenção e transforma a tentativa de cuidado em agressão, fico diante de uma escolha muito dolorosa: continuar tentando provar que estava certa ou sair do caminho e deixar que a realidade ensine aquilo que tentei ensinar.

E eu não queria acertar. Porque quando aquilo que previ acontece, não existe vitória alguma.

Existe apenas a tristeza de olhar para pessoas que poderiam estar vivendo outra história e perceber que, em algum momento, elas passaram por uma porta que tentei mostrar que não deveriam atravessar.

Há pessoas que continuam respirando, trabalhando, sorrindo, produzindo, circulando — mas algumas escolhas vão estreitando tanto a vida que, por dentro, já não resta quase espaço para viver.

E posso enxergar isso antes.

Mas enxergar antes não significa ser responsável pelo depois. Nem posso transformar minha impotência em culpa, porque tentei. 

Mas cada um acaba escolhendo o que quer viver.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Quando o pecado muda de nome

Existe, no meio cristão, uma linha de raciocínio que afirma que o pecado, propriamente dito, não existe mais.

O argumento parte de uma premissa verdadeira: pecado, na antiga aliança, estava profundamente relacionado à transgressão da Lei. E, em Cristo, fomos libertos da antiga aliança, da condenação da Lei e da tentativa de alcançar Deus pela observância de mandamentos.

Até aqui, tudo bem.

O problema começa quando se conclui que, porque a Lei de Moisés foi cumprida em Cristo, o pecado deixou de existir.

Então, aquilo que antes chamávamos de pecado passa a ser chamado de “obra da carne”.

Mas, para mim, isso não resolve a questão. Apenas muda a nomenclatura.

Porque, se uma obra da carne é egoísmo, inveja, ira, soberba, imoralidade, maldade, rivalidade, falta de domínio próprio, falta de amor ou qualquer outra manifestação contrária ao caráter de Cristo, continuamos diante de uma realidade que o Novo Testamento apresenta como incompatível com a vida no Espírito.

Podemos mudar o nome. A natureza do problema permanece.

Paulo não escreveu apenas aos judeus quando falou sobre as obras da carne. Suas cartas também foram dirigidas a comunidades gentílicas, compostas por pessoas que haviam recebido o Evangelho e agora eram chamadas a viver de outra maneira.

A questão, portanto, não é simplesmente: “Que Lei eu transgredi?” A pergunta passou a ser muito mais profunda: “Que tipo de vida estou produzindo?”

Porque Cristo não veio apenas para nos retirar debaixo de uma sentença. Ele veio para nos conduzir a uma nova vida.

A antiga aliança tinha tábuas de pedra. A nova aliança fala de algo escrito no coração.

Paulo usa justamente essa imagem ao falar de uma carta de Cristo, escrita não com tinta, nem em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne do coração, pelo Espírito.

Isso é muito significativo.

Cristo não aboliu a necessidade de uma vida orientada por Deus. Ele mudou o centro dessa vida.

A Lei não é mais um instrumento pelo qual tentamos conquistar a aceitação de Deus.

Em Cristo, somos aceitos antes de produzir qualquer coisa que possa nos tornar aceitáveis.

Mas justamente porque fomos alcançados pela graça, somos chamados a viver segundo aquilo que recebemos.

E qual é a essência dessa nova vida? O amor.
Jesus resumiu a Lei no amor a Deus e ao próximo.

Paulo disse que o amor não pratica o mal contra o próximo e, por isso, o amor é o cumprimento da Lei.

Tiago chamou de “lei régia” o mandamento de amar o próximo.

Então, talvez a pergunta mais importante já não seja: “Posso ou não posso?” Mas: “Isso nasce do amor?”

Não acredito que “obra da carne” seja uma categoria criada para substituir a palavra pecado e nos permitir continuar fazendo tudo aquilo que antes reconhecíamos como errado sem precisar chamá-lo de pecado.

A carne não é simplesmente um conjunto de comportamentos inadequados.

É a vida voltada para si mesma. É o ego ocupando o centro. É quando meus desejos, minha vontade, minha vantagem, minha vaidade, minha necessidade de reconhecimento e meu ressentimento passam a governar aquilo que faço.

E isso é exatamente o contrário da vida conduzida pelo Espírito.

Por isso, para mim, dizer: “Não é pecado. É apenas obra da carne.” não resolve nada.

Eu poderia perguntar: E o que é uma obra da carne senão uma expressão de uma vida que, naquele momento, deixou de caminhar segundo o Espírito?

Se feri alguém deliberadamente, que nome devo dar a isso?

Se humilhei alguém para me sentir superior, o problema desaparece porque retirei a palavra “pecado” da frase?

Se tive a oportunidade de amar e preferi alimentar meu ego, isso deixa de ser uma ruptura com o caráter de Cristo apenas porque não encontrei um mandamento de Moisés para citar? Não.

Talvez tenhamos simplesmente saído de uma compreensão jurídica do pecado para uma compreensão relacional e formativa.

E é aí que começo a compreender pecado de uma maneira diferente.

Pecado não é apenas quebrar uma regra. É também errar o alvo. É viver abaixo daquilo para o qual fomos chamados. É perder uma oportunidade de amar. É escolher o ego quando poderíamos escolher a graça. É alimentar a carne quando poderíamos alimentar o Espírito. É interromper, ainda que momentaneamente, aquele processo pelo qual Cristo vai sendo formado em nós.

Por isso, às vezes penso que pecado também pode ser entendido como uma oportunidade perdida de crescimento em graça.

Não porque a graça tenha diminuído. Não porque Cristo tenha deixado de nos amar. Não porque tenhamos perdido a salvação cada vez que tropeçamos. Mas porque, naquele momento, poderíamos ter respondido como Cristo e respondemos como nós mesmos.

E o Espírito trabalha em nós para que, um dia, aquilo que Cristo é deixe de ser apenas algo que admiramos e passe a ser também aquilo que, pela graça, estamos aprendendo a ser.
 


Fonte



Nunca quis apenas intensidade 
O que me encanta é profundidade 
Não me sinto pequena perto de ninguém.
Me sinto grande demais
para caber em tanta superficialidade.
Dificilmente encontro gente
que não seja uma cisterna rota,
dessas que a gente enche
e, ainda assim, continuam vazias.
Procuro, mas não encontro
quem seja, sem esforço,
uma fonte inesgotável.
Não alguém que impressione,
mas alguém diante de quem
seja possível permanecer.
Alguém que não exija esforço
para a conversa ter substância,
para o silêncio ser confortável,
para a presença alimentar.
Quem conhece o oceano
não vê graça em poça d'água.
É raro encontrar alguém
que, quanto mais entrega,
mais tem para oferecer.
Dessas pessoas diante das quais
a gente se esquece do tempo,
porque, quando encontra profundidade,
nem vê a hora passar.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

B12, cocô e massaneta quebrada



Esse post não é fruto das minhas divagações, intuição ou nada que vá contribuir com seu crescimento. É apenas uma desopilação do meu fígado.

Hoje o plano era acordar e ir ao posto de saúde cedo, porque em BH está fazendo muito calor esses dias. Eu precisava buscar meu remédio de controle do colesterol e tomar uma injeção de vitamina B12, porque amanhã trabalho, fim de semana não abre e segunda já quero fazer o exame de sangue pra dar tempo de buscar antes da consulta.

Fiz tudo certinho, mas quando entrei no posto, cadê minha identidade? Ninguém ia liberar remédio pra mim sem documento. Voltei tudinho, o calor já intenso, o pé doendo porque resolvi colocar uma sapatilha nova... Enfim, cheguei em casa.

O Tito, meu cachorro, tinha feito cocô no lugar errado. Ele faz isso de picardia toda vez que saio e deixo ele dentro de casa. 

Limpei a bosta, troquei o calçado e peguei o documento. Lá fui eu fazer o percurso todo de novo, o contador de passos está marcando quase 9 mil, pelo menos gastei calorias. Ok, peguei meu remédio e estava aguardando me chamarem pra tomar a injeção.

Depois de séculos me chamaram na sala de observação. A mulher com cara de poucos amigos murmurou alguma coisa que não entendi. Depois falou mais alto que era pra eu encostar a porta.

Vi que tinha um tijolo segurando a porta, achei que era um improviso pra porta se manter aberta. E era, porém depois que bati a porta, percebi o porquê dela não poder fechar. Estava sem massaneta e eu nos tranquei naquele cubículo.

A mulher mais azeda ainda, não parava de reclamar. A injeção que normalmente já queima, ela aplicou que parecia um tiro. A agulha entrou no músculo e ela apertou o conteúdo de uma vez. Parecia uma injeção de pimenta na minha bunda.

Depois ela ainda murmurando pediu pelo computador, para alguém vir abrir a porta por fora. Demoraram horrores para ler o recado, mas finalmente o segurança veio e abriu.

Vim torrando no Sol e ao abrir a porta deparei com um pedaço da minha cortina no chão, é a terceira que o Tito rasga tentando escapar pela janela.

Ainda são 11 horas, tá? E eu já gastei toda a minha dose de intercorrências diárias.

Tô fazendo almoço, depois vou sentar no sofá e esquecer que tem vida lá fora.

Se a vida não é um morango pra ninguém, a minha às vezes capricha. Isso aqui tá parecendo crônica de stand-up.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Visão panorâmica

Saber que Deus não está sujeito ao tempo que Ele mesmo criou é fundamental para compreender o que somos em Cristo.

Quando essa verdade começa a fazer sentido, mudam também os conceitos que usamos na oração, no processo de santificação, na compreensão da revelação bíblica, na identificação de heresias e doutrinas estranhas e, sobretudo, na compreensão daquilo que Deus realizou em nós.

Entender que o Cordeiro foi imolado antes da fundação do mundo nos permite compreender que Deus realmente nos amou primeiro, antes mesmo que cada um de nós existisse no mundo.

Antes que houvesse o nosso tempo, já havia em Deus o propósito da redenção.

E, em Si mesmo, Ele garantiu que fôssemos salvos, santificados, cooperadores do Seu Reino e aperfeiçoados no Seu amor.

Por isso, minha oração não gira em torno da minha vontade, como se Deus estivesse inerte, esperando que eu O convença a agir.

Antes, abro mão da pretensão de conduzir tudo e peço que Ele me conduza à sintonia com a Sua vontade — e que essa vontade também se torne a minha satisfação.

Conhecendo que sou Dele, compreendo que, embora eu exista dentro do tempo e minhas escolhas aconteçam nele, Deus não me conheceu apenas quando fui gerada.

Fora dos domínios do tempo, Ele já me viu, já me atraiu, já me conduziu e já me recebeu vencedora.

Não porque tenha ignorado minhas escolhas, mas porque a minha história não é uma surpresa para a eternidade de Deus.

Assim como creio que o sacrifício do Cordeiro na Cruz me redimiu da minha culpa, embora tenha sido consumado no tempo, há mais de dois mil anos, creio também que minha carne estava representada naquela Cruz.

Era necessário que ela morresse para que Cristo vivesse em mim.

E, embora dentro do tempo eu ainda perceba essa carne vivíssima, exigindo domínio, disciplina e vigilância, sei que a obra de submetê-la não depende finalmente da minha força.

Quem me santifica é o Espírito Santo.

Eu coopero, cedo, obedeço, renuncio, caminho. Mas não sou eu quem produz em mim a vida de Cristo.

O trabalho é Dele.

E essa é a minha única e suficiente garantia:

não chegarei naquele Dia porque consegui, sozinha, aperfeiçoar a mim mesma.

Chegarei porque Aquele que começou a boa obra é também Aquele que a consumará.

Dentro do tempo, ainda caminho.

Ainda caio, levanto, aprendo, renuncio, amadureço.

Mas, para além do tempo, há uma obra que já está segura em Deus.

E é por isso que posso caminhar sem o desespero de quem precisa conquistar aquilo que Cristo já garantiu.

A eternidade não me autoriza a viver irresponsavelmente no tempo.
Ela me permite viver no tempo sem medo de que o tempo tenha a palavra final sobre mim.

Minha história ainda está acontecendo.

Mas minha salvação não está sendo improvisada.

Há uma obra em andamento — e o Autor dela não começou ontem, nem depende do amanhã.

Ele é antes do princípio, está presente no meu hoje e já conhece o fim.

E eu descanso nisso.

As crianças são visitadas

A filha de um cantor, com mais ou menos um ano e meio, estava brincando com a mãe num closet, com sapatos de salto nos pés, numa cena um tanto comum para quem convive  com meninas.

Sem mais nem menos a criança disse: "Igreja, aleluia, Jesus tá vindo." E a mãe atônita, disse que não era algo que a menina estava acostumada a ouvir.

Um pastor resolveu então, juntar este vídeo e outros, onde crianças narram suas próprias experiências. Alguns bem pequenos, outros maiores. Uns diziam estar vendo, outros contavam sonhos bem complexos, com alegorias eregadas à muita emoção.

A última relatou com riqueza de detalhes o sonho que acabara de ter. Entre lágrimas e soluços, narrava sua experiência.

Eu, emotiva que sou, estava ouvindo atenciosamente, com os olhos marejados.

Meu neto neurodivergente, que não é criado em contato com nenhuma religião, estava ao meu lado e disse: "Elas são muito sensíveis ao Espírito Santo". O que me surpreendeu.

Perguntei:"Você sabe quem é o Espírito Santo?"
E ele: "não"
"Quem te falou sobre o Espírito Santo?"
E ele: "ninguém"
Perguntei:" Uai, então como você disse que elas são sensíveis ao Espírito Santo?"
E ele: "Eu não sei, eu só falei"
Eu disse a ele: "você também é bem sensível ao Espírito Santo".
E ele: "naaao" como quem não sabe se é algo bom ou ruim, o que me fez perceber que ele realmente não sabia o que estava dizendo.

Apesar da minha fé, procuro não interferir na criação que os pais dão a ele, pois são separados. Um é espírita e não crê que o Espírito Santo é um ser e o outro é ateu.

Ele poderá, um dia, construir a própria compreensão sobre Deus — ou não. E, se alguma experiência espiritual realmente fizer parte da trajetória dele, ela não precisará ser fabricada por mim.

A fé pode acolher o mistério sem precisar transformá-lo imediatamente em certeza.


Envelhecer com respeito ao outro

Que a minha idade nunca me dê licença para ser desagradável

Se tem uma coisa que tenho pavor de me tornar é uma pessoa sem limites.

Daquelas que não respeitam o espaço do outro, que invadem, ofendem, impõem, que transformam a própria visão de mundo em régua para medir todo mundo.

Não quero me tornar alguém que acredita que a idade lhe dá o direito de dizer qualquer coisa, entrar na vida de qualquer pessoa ou exigir consideração apenas porque viveu mais.

Eu nunca fui parâmetro para ninguém.

Talvez justamente por isso eu tenha aprendido a não fazer de mim mesma uma medida universal.

Já nasci neurodivergente. Meu corpo nunca foi padrão. Minha beleza nunca correspondeu exatamente ao padrão. Minha família não seguiu o modelo tradicional. Minha fé também não cabe mais nos modelos religiosos que um dia me abrigaram.

E, sinceramente? Eu amo ser quem sou. Não preciso me encaixar para existir.

Sou aberta ao diálogo, disposta a ouvir quem pensa diferente, flexível diante do novo e suficientemente livre para rever aquilo que um dia pensei saber.

Não tenho necessidade de transformar minhas convicções em muros.

Posso discordar sem desrespeitar. Posso questionar sem humilhar. Posso defender o que penso sem exigir que o outro pense igual.

Não balango o beiço para me impor a ninguém. Não cravo minha opinião como a única aceitável.

Não concordo com muita coisa. Às vezes, discordo profundamente. Mas há uma diferença entre ter convicções e achar que se é dono da verdade.

Eu quero continuar aprendendo. Quero continuar curiosa. Quero continuar capaz de olhar para o mundo e pensar: talvez eu ainda não tenha entendido tudo.

Porque envelhecer, para mim, não deveria significar ficar mais rígida. Deveria significar ter mais consciência das consequências daquilo que faço e digo.

Que meus cabelos brancos nunca sejam autorização para invadir a vida de ninguém. Que minha idade não me dê licença para ser inconveniente, ofensiva, preconceituosa ou invasiva. Que a experiência que acumulei não se transforme em soberba. Que aquilo que vivi possa servir apenas quando alguém quiser ouvir.

Não quero usar minha experiência como arma.
Quero oferecê-la como possibilidade.

Quem quiser, pega. Quem não quiser, segue seu caminho. E eu sigo o meu.

Porque talvez uma das formas mais bonitas de envelhecer seja esta: continuar sendo inteira sem precisar fazer do outro uma extensão de si mesma.

A vida me ensinou muita coisa. Mas não me ensinou tudo. E isso é libertador.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

O que conspira contra o homem é o ego.


O que conspira contra o homem é o ego.

Foi o ego de Adão que o levou a desobedecer à única Lei que havia recebido. A promessa de ser como Deus encheu seus olhos, e ele desejou aquilo que não lhe havia sido dado.

Foi também o ego que tantas vezes levou Israel a transgredir, a abandonar o Deus que o havia chamado e a se prostituir com deuses estranhos.
 
Um povo que, em muitos momentos, transformou sua eleição em mérito próprio, sua identidade em superioridade e sua diferença em motivo para subjugar o outro.

O ego faz estragos nas relações e também na maneira como enxergamos o mundo.

Ele distorce os fatos para preservar a própria narrativa.

Prioriza a si mesmo. Subjuga o outro. Transforma diferença em ameaça. Converte conhecimento em superioridade. E alimenta-se de orgulho, soberba e arrogância.

O ego quer estar acima. Quer ter razão. Quer ser reconhecido. Quer controlar. Quer receber sem necessariamente se entregar. Quer Deus, desde que Deus confirme aquilo que ele já decidiu ser.

Jesus, porém, faz o caminho inverso.

Sendo, esvazia-se. Podendo, submete-se. Conhecendo, convida. Tendo autoridade, não oprime. Podendo exigir, serve. Podendo ser servido, serve. Podendo preservar-se, entrega-se. Podendo receber, doa-se.

Cristo não constrói sua grandeza sobre a diminuição do outro. E é justamente por isso que seu caminho confronta o nosso ego.

Ele não nos chama a conquistar uma posição acima dos outros, mas a descer do pedestal. Não nos chama a provar que somos superiores, mas a aprender a amar. Não nos chama a impor nossa verdade, mas a viver a verdade que transforma a maneira como tratamos o outro.

Negar a si mesmo não é apagar quem somos. É retirar o ego do trono. É deixar de fazer de nós mesmos o centro de todas as coisas.

Talvez seja esse um dos grandes paradoxos do Evangelho: para finalmente encontrarmos quem somos, precisamos deixar de viver para provar quem somos.

Jesus não nos chama para alimentar o ego com religião. Chama-nos para morrer para ele, para negar a nós mesmos. E, livres da tirania do ego, finalmente aprender a amar.

domingo, 27 de setembro de 2026

Escaladas e declives

Não, a vida cristã não se concretiza em planícies. Há que se aprender a caminhar entre escaladas e declives, entre solos rochosos e espinheiros, entre a aridez e os tempos de chuva. Entre o dia de rir e o dia de chorar; entre os momentos de regozijo e o tempo de prantear as perdas.

Há caminhos que nos fazem subir e outros que nos obrigam a descer. Há estações em que tudo floresce e outras em que parece que nada responde à nossa espera.

Mas talvez a maturidade da fé esteja justamente em aprender a caminhar com Deus em todos esses terrenos e não apenas quando o caminho é agradável.

Porque, no Senhor, nada é em vão. Nem a subida que nos fortaleceu, nem o declive que nos ensinou a depender. Nem a aridez que nos fez buscar água, nem a chuva que nos fez florescer. Nem o riso, nem o pranto. Nem mesmo aquilo que não conseguimos compreender enquanto atravessávamos.

A fé não promete uma vida sem vales. Promete a presença de Deus enquanto os atravessamos.

Tudo, de alguma maneira, pode cooperar para o bem daqueles que amam a Deus e nele esperam.

Território santo

Se quiser vir, venha sem as sandálias sujas
No meu território ninguém pisa de qualquer jeito 
Não aceito mais o lixo de ninguém 
Pessoas que usam minhas dores
Pra me atingir ou desrespeitar
Gente que me sangra por satisfação 
Como um tubarão que é atraído pelo sangue 
Gente perversa tem um limite
Fique afastado de mim

Porque agora eu me protejo
Ninguém vai me usar de novo
Ninguém vai minar minha energia 
Nem sujar minha paz
Ninguém vai me enganar,
Trair ou ser desleal
Nem vampirizar minha alegria 

Ninguém mergulha no meu sagrado 
Pra contaminar o que preservo
Ninguém profana minha confiança 
Ninguém transforma minha abertura
em oportunidade para me ferir.

Não  sou território público 
nem passagem livre.
Minha sensibilidade não é fraqueza.
E o meu amor não é autorização
para que alguém me destrua.

Acolhimento não é acesso 
Amor não aceita abuso 
Perdão não é permissão pra voltar 

Meu coração não é terreno baldio
Minha alma não é caçamba 
Cada um que carregue seus entulhos
E elabore suas dores
Se vier, venha descalço 

Ou vem com respeito 
Ou nem venha, nunca mais.

sábado, 26 de setembro de 2026

O fruto, e não o espetáculo


Não parece contraditório que justamente o povo que mais reivindica manifestações espirituais e se considera detentor da revelação de Deus seja, muitas vezes, tão envolvido com a esfera material: prosperidade, conquista, confissão positiva, coaching gospel, discursos motivacionais revestidos de linguagem bíblica e até experiências que conduzem emocionalmente pessoas vulneráveis?

Quanto mais conhecimento bíblico deveria haver, menos espaço para o misticismo que transforma a fé em espetáculo, fórmula ou instrumento de obtenção de coisas.

A Bíblia apresenta outro parâmetro.

Paulo escreve: "Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, domínio próprio. Contra essas coisas não há lei.” Gálatas 5:22-23

Observe que Paulo não apresenta uma lista de manifestações extraordinárias. Ele apresenta caráter.

O fruto do Espírito não é uma coleção de experiências espirituais que alguém acumula para provar que possui Deus. É aquilo que começa a aparecer na vida daquele que pertence a Cristo.

Jesus havia estabelecido esse princípio de outra maneira: “pelos seus frutos os conhecereis.” Não é pelo volume do discurso, pela aparência de espiritualidade, pela quantidade de sinais, pela eloquência ou pelo tamanho da multidão.

É pelo fruto.

Isso não significa que o cristão alcance uma espécie de perfeição moral instantânea. Paulo mesmo fala da tensão entre carne e Espírito. Existe luta. Existe fraqueza. Existe queda. Existe necessidade de vigilância. Mas há uma direção.

Quando alguém é governado pelo Espírito de Cristo, a tendência da sua vida não deveria ser cada vez mais parecida com os valores do mundo e cada vez menos parecida com Cristo. O movimento deveria ser o contrário.

O ramo ligado à videira não precisa fabricar uvas artificialmente para provar que pertence à videira. Ele frutifica porque está ligado à fonte da vida.

Nem todo arrepio é revelação. Nem toda manifestação é maturidade. Nem todo sinal é aprovação divina. Nem toda experiência espiritual produz espiritualidade.

A própria Escritura adverte que sinais e maravilhas, por si mesmos, não são critério suficiente para discernimento. O extraordinário pode impressionar os olhos; o fruto revela o coração.

O verdadeiro teste acontece onde não há palco.

Como essa pessoa trata quem não pode lhe oferecer nada?
Como reage quando é contrariada?
Como trata os vulneráveis?
O que faz com o poder que recebe?
Consegue perdoar?
Consegue dominar a própria língua?
Consegue abrir mão de uma vantagem?
Consegue amar sem transformar o outro em instrumento?

É aí que a fé deixa de ser discurso e se torna vida. Porque o cristianismo não prometeu transformar a Terra em céu.

O povo de Deus tem os pés na temporalidade, mas a esperança na eternidade. Sabe que esta vida continuará atravessada por perdas, limitações, injustiças, doenças, frustrações e espinhos.

Paulo pediu que seu espinho fosse retirado. A resposta não foi uma fórmula de conquista. Foi: “A minha graça te basta.”

Uma das maiores distorções da fé é ensinar às pessoas que uma vida com Deus deveria ser uma vida sem espinhos. A graça não prometeu que não haveria espinhos. Prometeu que o espinho não teria a palavra final.

E é justamente aí que a maturidade cristã se revela: não em conseguir fazer o céu descer à Terra para satisfazer todos os desejos da carne, mas em atravessar a Terra sem perder aquilo que pertence ao céu.

Amor. Alegria. Paz. Longanimidade. Benignidade. Bondade. Fé. Mansidão. Domínio próprio.

Contra essas coisas, não há lei.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Sacerdócio materno


Num Pod Cast, acabei de ver uma mulher calar um homem.

Ele resumia sua história dizendo que, quando conheceu a esposa, a primeira condição que ela colocou para se casar era não ter filhos. Queria liberdade para viajar, conhecer o mundo. Era uma questão dela e também das amigas, que haviam combinado viver assim. Mas ele hoje tem filhos.

E dizia que algumas pessoas transferem o amor para um afilhado, um sobrinho, um animal de estimação. Mas que amar um filho é diferente, porque existe ali uma questão de posteridade.

A entrevistadora respirou fundo justamente nessa palavra.

Posteridade.

E começou a falar das mães que, mesmo quando não conseguem enxergar no filho aquilo que esperavam que ele se tornasse, conhecem um amor que não depende de resultado: um amor transcendental, inexplicável, imensurável.

Lembrou das mães que fazem fila em presídios enquanto quase todos já deram as costas aos filhos que cometeram crimes hediondos.

Lembrou das mães de crianças com deficiências, para quem a maior alegria no dia pode ser simplesmente ver o filho abrir os olhos, engolir sozinho, sorrir.

Porque, para muitas mães, o filho não precisa representar uma promessa de posteridade. Ele precisa apenas estar ali.

É corriqueiro que muitos pais dão as costas aos filhos quando o relacionamento com a mãe termina, quando chega um diagnóstico difícil ou quando percebem que aquele filho não correspondeu às expectativas que depositaram nele.

A maternidade também conhece abandonos, é claro. Nem toda mãe consegue ou deseja exercer esse lugar.

Mas existe algo que atravessa a experiência da maioria das mulheres que se tornam mães: o filho passa a ocupar um lugar que não depende do que ele pode oferecer em troca.

É comum uma mulher sobrecarregada comer o que o filho deixou no prato. Ela nem pensa sobre isso.

Come para não desperdiçar, para não precisar preparar outra coisa, para ganhar alguns minutos, para que sobre mais tempo para o filho.

A maternidade não acontece somente nos grandes sacrifícios. Ela acontece nesses pequenos desaparecimentos de si mesma que ninguém registra.

Na comemoração de uma conquista que talvez para qualquer outra pessoa pareça pequena, mas que para aquela mãe representa uma montanha vencida.

Parir muda prioridades, mas o vínculo materno, para muitas mulheres, começa na concepção, na expectativa, no corpo que passa a abrigar outro corpo, na consciência de que existe alguém cuja vida depende inteiramente dela.

E sim, existem mulheres que não desejam ter filhos. Existem mulheres que não se identificam com a maternidade. Existem também mães que abandonam, rejeitam ou não conseguem estabelecer esse vínculo.

Mas, para muitas das mulheres que têm filhos e assumem a maternidade, alguma coisa muda de lugar dentro delas.

É como receber um sacerdócio, porque quando ela assume esse lugar, é convocada a uma entrega que muitas vezes ultrapassa aquilo que imaginava ser capaz de dar.

Aquele homem tentou explicar quando falou em posteridade. Mas a entrevistadora mostrou outra coisa: para uma mãe, muitas vezes, o filho não precisa ser a sua posteridade.

Ele já é, simplesmente, o seu filho.

E isso pode ser uma forma de amor que não cabe em nenhuma explicação.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Moda e estilo

Eu era uma adolescente romântica.

Gostava das informações de moda que ressaltavam a delicadeza: tecidos leves, cores suaves, nada muito curto ou transparente. Gostava de renda, laise, tecidos de boa qualidade, estampas discretas, bordados, pequenos detalhes que faziam uma roupa parecer especial.

Eu escolhia minhas roupas com cuidado e recebia elogios constantemente. Diziam que eu parecia rica. Talvez porque eu soubesse escolher aquilo que combinava comigo, mesmo sem ter muito dinheiro.

Eu gostava de me vestir, então engravidei.

Vieram a gravidez, os problemas emocionais e mais de vinte quilos. Meu corpo mudou rapidamente. Perdi minhas curvas, ganhei estrias, a barriga ficou caída depois da cesárea e, à medida que o peso aumentava, minha autoestima diminuía.

As pessoas começaram a dizer que eu tinha me abandonado. Que estava ficando deformada. Algumas me olhavam com perplexidade, como se meu corpo tivesse se tornado uma espécie de assunto público.

E eu acreditei.

Perdi todas as minhas roupas e, junto com elas, perdi um pouco da mulher que eu tinha sido.

Passei a querer apenas jeans e camisas largas. Quanto mais largas, melhor. Eu queria me esconder dentro delas.

Não queria vestidos nem saias. Não queria nada que marcasse o corpo. Se pudesse, teria ficado invisível.

Naquele tempo não havia internet. E encontrar roupas bonitas para um corpo grande era quase impossível. O que chegava até mim eram túnicas, roupas largas, modelos que pareciam feitos para mulheres muito mais velhas.

Eu tinha pouco mais de vinte anos e me vestia como senhora, era a numeração que me servia e isso era um sofrimento.

Então chegou a internet. E, com ela, uma possibilidade que parecia pequena, mas mudou muita coisa: eu descobri que existiam roupas para mulheres como eu.

Lojas plus size, modelos modernos, referências, combinações. Pela primeira vez, pude procurar uma roupa pensando não apenas em "o que cabe em mim?", mas também em "o que eu gosto?"

Comecei devagar a me olhar com mais carinho.

Descobri o que valorizava meu corpo, o que me deixava bonita, o que fazia sentido para mim. Fui encontrando um estilo mais clássico e casual. Virei uma gordinha charmosa.

Entendi que meu corpo não precisava desaparecer para que eu pudesse aparecer. Hoje tenho muitas roupas.

E isso talvez diga mais sobre minha história do que parece. Porque durante muito tempo eu não comprava roupas para mim. Eu comprava aquilo que conseguisse esconder meu corpo.

Hoje, quando olho para o meu guarda-roupa, vejo uma mulher que voltou a gostar de se escolher.

E agora existe uma possibilidade nova diante de mim.

Se o meu corpo mudar novamente, quero aproveitar essa mudança sem transformar emagrecimento em condição para me amar. Quero simplesmente experimentar.

Vestir as coisas que sempre quis. Usar uma saia, um vestido, uma roupa mais ajustada, tecidos leves. Cores suaves, rendas, bordados, delicadezas.

Quero reencontrar aquela adolescente romântica que gostava de escolher o que vestir.

Mas não quero voltar a ser quem eu era, quero levar aquela menina comigo para a mulher que me tornei. 

Hoje sou bem mais eclética, gosto de moda para vários estilos. E quero voltar a cuidar de mim inclusive escolhendo minhas roupas com carinho.

 


A mulher que ninguém enxergou

Olhar para a mulher que sou hoje não fará ninguém entender a minha história.

O que sou agora não resume os cinquenta anos de treinamento para me encaixar naquilo que esperavam de mim.

Antes dessa mulher, existiu uma criança que não interagia, que se isolava, que desviava do bullying, das risadas e dos cochichos.

Uma menina que não tinha amigos, que não sabia trocar, não sabia como começar uma conversa, não sabia se relacionar.

Depois veio a adolescente insegura, que usava as poucas pessoas próximas como ponte para conhecer outras pessoas. Mas, quando estava sozinha, perdia completamente a coragem de falar.

Veio a filha que incomodava porque questionava antes de obedecer.

A que foi chamada de irreverente, teimosa, chorona, insubordinada. A que parecia sempre difícil demais.

Depois, a jovem que demorou a namorar, que não conseguia sustentar relacionamentos e que, muitas vezes, acabava sendo trocada por garotas que pareciam mais interessantes, mais maduras, mais fáceis de compreender.

Até que engravidei.

E precisei criar meu filho sozinha, enquanto eu mesma ainda estava tentando descobrir como ser adulta.

Por muito tempo, ninguém pareceu perceber que havia alguma coisa por trás de tudo aquilo.

Um processo que somente eu conseguia enxergar.

A minha neurodivergência nunca encontrou acolhimento dentro da família. Não tive suporte, não tive terapia, não tive laudo, não tive compreensão.

Não tive sequer a tolerância necessária para descobrir quem eu era antes de ser cobrada por aquilo que eu não conseguia ser.

Então fui aprendendo do jeito que dava. Aprendi a observar antes de falar. A me adaptar. A imitar comportamentos. A esconder dificuldades. A suportar desconfortos em silêncio.

Aprendi a parecer funcional mesmo quando por dentro eu não sabia muito bem como funcionar.

E talvez por isso tenha me tornado alguém tão fácil de abandonar. Porque ninguém precisava sequer entender o que acontecia comigo para concluir que eu era difícil demais.

Não sei quantas vezes fui chamada de tantas coisas. Só sei que, durante muito tempo, carreguei a sensação de não caber em lugar nenhum.

Hoje, quando olho para mim, não vejo apenas a mulher que finalmente aprendeu a se posicionar.

Vejo todas as mulheres que precisei ser para sobreviver. A criança que não sabia interagir, a menina que não sabia fazer amigos, a adolescente que precisava de alguém por perto para conseguir falar, a filha que perguntava antes de obedecer, a jovem que não sabia permanecer nos relacionamentos, a mãe que precisou crescer enquanto criava um filho.

E vejo, sobretudo, uma mulher que chegou até aqui sem ter recebido o manual que esperavam que ela soubesse ler.

Hoje eu me respeito, me cuido, porque descobri quem eu sempre fui e não me abandono mais. Antes me acolho como todas as minhas diferenças.


Lavando para recomeçar

Lembro-me de minha mãe contando que, quando os médicos me desenganaram, ela também se decepcionou com sua religião de matriz africana.

Disseram a ela que não havia mais nada a fazer. Que deveria se conformar em me perder. Mas ela não se conformou.

A revolta foi tamanha que ela e meu pai juntaram todos os objetos daquela religião: imagens, roupas e tudo aquilo que fazia parte daquele universo. Fizeram uma grande fogueira.

Depois, começaram a lavar a casa. Do telhado para baixo. As paredes, o chão, o quintal.

Como quem não estava apenas limpando uma casa, mas tentando lavar uma história inteira.

Talvez minha mãe não soubesse explicar, mas alguma coisa dentro dela precisava marcar um antes e um depois.

Era preciso se desfazer de algumas coisas para conseguir respirar novamente.

Era preciso abrir espaço para aquilo que ainda poderia acontecer. E aconteceu, eu sobrevivi.

Anos depois, numa manhã qualquer, encontrei essa memória enquanto jogava água no chão da minha própria casa. Aproveitei que havia retirado todos os tapetes e resolvi lavar tudo.

A água corria pelo chão e, de repente, pensei nela. Minha mãe lavando a casa porque precisava recomeçar. Eu lavando a minha porque também estou diante de um recomeço.

Talvez a vida tenha dessas coisas: alguns gestos atravessam gerações sem que a gente perceba.

No próximo ano, quero borboletar. Vou fazer a bariátrica e também me aposentar.

Mudar de pele, abrir as asas, experimentar outros ares, outras perspectivas, outros horizontes.

Talvez seja finalmente começar a ocupar alguns espaços da vida que ficaram esperando. Tenho 54 anos.

Já vivi bastante para saber que não existe recomeço sem deixar alguma coisa para trás. E há espaços que precisam ficar vazios por algum tempo para que o novo possa chegar.

Meus pais se foram cedo.

E, olhando para trás, às vezes tenho a impressão de que suas vidas foram deixando pequenas sementes pelo caminho. Meus pais partiram, mas algumas coisas que eles viveram ainda estão acontecendo em mim.

Naquele momento minha vida não acabou, mas o recomeço aconteceu, como agora nessa nova fase da minha própria vida.


terça-feira, 22 de setembro de 2026

Sabedoria não é só inteligência

Ter sabedoria não tem necessariamente a ver com ser inteligente, mas com saber e o saber possui vários níveis.

Há coisas que o intelecto pode compreender, mas há outras que só o corpo, a alma e o espírito conseguem conhecer.

Você conhece a dor do corpo porque já passou por aquilo que um dia o feriu.

Conhece a dor da alma porque precisou atravessar aquilo que o traumatizou.

E conhece aquilo que expande ou retém seu crescimento espiritual porque, em algum momento, a Luz do mundo se revelou e mostrou o caminho.

Por isso, ser sábio não é simplesmente passar pelo desconforto, pela perda ou pela dor. É saber o que fazer com aquilo que nos atravessou.

É transformar experiência em discernimento.
É amadurecer a ponto de reconhecer determinados caminhos antes de percorrê-los novamente. É perceber os sinais, compreender os próprios limites, corrigir a rota e, quando possível, não precisar repetir a mesma queda para aprender a levantar.
A sabedoria não elimina a dor, mas impede que ela seja desperdiçada.

Ela transforma ferida em percepção, experiência em discernimento e conhecimento em escolha.

A tolice, por outro lado, não é necessariamente falta de inteligência. Às vezes, é possuir conhecimento suficiente para saber que determinado caminho machuca e, ainda assim, continuar escolhendo-o.

Inteligência é capacidade de compreender, aprender e elaborar informações.

Conhecimento é aquilo que se sabe.

Sabedoria é saber o que fazer com aquilo que se sabe.

Por isso, sabedoria é mais do que acumular conhecimento: é ampliar a visão de mundo até que aquilo que aprendemos transforme a maneira como escolhemos viver.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Quando o pessimismo vira identidade


Conheço gente que é triste, amargurada, reativa.
Gente que, cada vez que você pergunta “como vai?”, tem sempre uma resposta negativa.

O problema às vezes muda, mas a narrativa permanece: está sempre ruim, pesado, sofrido, adoecido. Nunca está bem.

Nunca há uma pequena alegria, uma coisa boa acontecendo, uma leveza sequer no meio da vida.

É gente que carrega um peso e, sem perceber, pesa também qualquer conversa. Como se não conseguisse falar da vida sem colocar sobre a mesa uma nova queixa, uma nova tragédia, uma nova razão para explicar por que tudo está difícil.

E o curioso é que todo mundo tem seus desafios.
Todo mundo resolve problemas. Todo mundo perde coisas e pessoas. Todo mundo adoece. Todo mundo carrega alguma história que doeu.

Há traumas que ninguém vê, lutas que ninguém conhece e dias em que simplesmente levantar da cama já exige alguma coragem.

Mas algumas pessoas parecem ter se acostumado tanto com o olhar nublado que já não conseguem enxergar a paisagem.

Carregam nas costas o pedregulho do pessimismo, murmurando contra tudo e contra todos, como verdadeiras vítimas do universo. Como se a vida lhes tivesse reservado uma quantidade excepcional de sofrimento e o restante das pessoas estivesse apenas vivendo sem problemas.

Talvez exista nisso uma necessidade de ser visto.
Talvez seja uma maneira de dizer: “olhem o quanto eu suportei”.

Talvez seja uma tentativa de encontrar valor em si mesmo através da própria capacidade de sobreviver. Não sei.

O sofrimento humano é complexo demais para caber numa explicação simples. Mas sei que viver é um desafio diário para todos nós.

E talvez amadurecer seja justamente aprender que podemos atravessar dificuldades sem transformar a dificuldade na nossa identidade.

Podemos sofrer e continuar fazendo o bem. Podemos perder e continuar cuidando. Podemos adoecer e procurar tratamento.
Podemos ter problemas sem transformar cada conversa numa extensão deles.

Nem tudo dá certo. E nem tudo dá errado.
A gente perde coisas e pessoas. Outras chegam.
Algumas portas se fecham. Outras se abrem.
Há dias de choro e dias de riso.
Há fracassos, recomeços, despedidas, encontros, doenças, curas, cansaço e descanso.

A vida não precisa ser perfeita para ser boa.
Talvez seja preciso apenas parar de esperar que o mundo nos trate como exceção — para o bem ou para o mal.

Não somos privilegiados pela dor, nem perseguidos por ela. Somos parte do todo.

E, enquanto a vida acontece, fazemos o que podemos: cuidamos da mente, cuidamos do corpo, procuramos saúde, resolvemos o que está ao nosso alcance e deixamos de sofrer antecipadamente por aquilo que ainda nem aconteceu.

E, principalmente, aprendemos a olhar para a frente.
Não porque tudo ficará bem o tempo inteiro. Mas porque, mesmo quando nem tudo está bem, ainda há vida acontecendo.

E enquanto houver vida, ainda podemos plantar alguma coisa.

O ouro da fé

Não diminua Deus de forma que Ele caiba na caixinha dos teus conceitos, o Cordeiro foi imolado desde antes da fundação do mundo. 

Então Ele sabia que o homem iria pecar? Sim, na narrativa do Éden não havia a árvore do conhecimento do bem e do mal? Que mal? O que haveria de vir.

Então a víbora não fez o homem pecar? Não, ela só mostrou ao homem que ele tinha ego, que poderia possuir a ciência como Deus e ser independente. O homem escolheu se emancipar.

Então, se Deus sabia que a Lei não justificaria ninguém, porquê a deu à Israel? Pra mostrar ao homem que ele é réu de suas próprias escolhas desde sempre e que precisa da mediação de Cristo para se religar, porque o bem que deseja fazer não consegue. 

Mas consumando o que estava proposto desde a eternidade no tempo oportuno, o Filho advoga nossa causa.

Mas e a Igreja? Se corrompeu e se tornou cópia da religiosidade de Israel, inclusive forjando outros ídolos.

O homem é réu, lembra? 

Mas veio a reforma e os evangélicos são o povo de Deus, né? Bem, um olhar honesto sobre os passos da religião, verá que é mais do mesmo. O alvo mudou, os interesses são outros, é mais política e poder, fama e lucro do que qualquer outra coisa. 

O homem é réu, lembra? 

Deus sabia disso também? Claro que sim, você não soube que o falso profeta, a besta, o inferno e a prostituição das religiões serão lançadas no lago que consome? 

Para que haja restauração e plenitude, o que é palha será destruído. O que restará então? O ouro, o tesouro incorruptível que só o amor, a justiça, a misericórdia produz, estas são as obras que acompanham a fé, sem estas obras, a fé é só religião vazia mesmo, é morta. 

A Bíblia está ao alcance de quase todos, mas a sabedoria não é simplesmente possuir o texto.
É buscar aquilo que o texto aponta.

E, para mim, aquilo para o qual Cristo aponta é simples: amar a Deus amando o próximo.

Porque, no fim, o amor não é apenas uma parte da fé. É aquilo que permanece quando todo o resto passar.

É o ouro depurado que permanece incorruptível.

domingo, 20 de setembro de 2026

A formação de um povo

Os hebreus não saíram do Egito carregando apenas seus pertences; carregavam também séculos de convivência com uma cultura profundamente marcada pelo politeísmo, por seus rituais, costumes e formas de culto.

A Lei mosaica, nesse contexto, não pode ser compreendida apenas como um conjunto de regras morais universais. Ela também funcionava como instrumento de formação e diferenciação de um povo que estava sendo constituído.

Muitas de suas prescrições regulavam justamente aquilo que poderia aproximar Israel das práticas religiosas e culturais dos povos ao seu redor: culto a outros deuses, sacrifícios, alimentos, purezas rituais, práticas sexuais, festividades, vestimentas e diversos costumes.

Algumas dessas leis nos parecem estranhas, excessivas ou até incompreensíveis quando lidas a partir da nossa cultura. Mas elas pertencem a um contexto histórico específico. Serviam também para estabelecer fronteiras: “vocês não serão como os outros povos”.

Israel precisava aprender uma nova identidade, e a Lei fazia parte desse processo.

Por isso, retirar determinados mandamentos do seu contexto histórico e transportá-los diretamente para o século XXI pode produzir conclusões bastante equivocadas. O que era uma marca de identidade, separação ou pureza ritual dentro daquela sociedade não necessariamente constitui uma norma moral universal para todos os povos e épocas.

A própria trajetória bíblica mostra que a relação entre Deus, Lei, povo e cultura não é estática. Há um processo de formação, interpretação e transformação que culmina, para o cristianismo, em Cristo.

A Lei não apenas dizia ao povo o que fazer; ela também ensinava ao povo quem ele deveria ser dentro daquele contexto histórico.

E “lei moral”, “lei civil” e “lei ritual” são categorias teológicas posteriores, úteis para organizar o material, mas a Torá não aparece originalmente dividida dessa maneira. 

Antes de perguntar “por que Deus mandou isso?”, é importante perguntar “que função essa norma exercia dentro daquela sociedade e naquele momento da história de Israel?”.

Babel

Surgiu uma questão que achei interessante, finalmente. O ateu perguntou o por quê Deus ter reagido à torre de Babel e não às estações espaciais.

A questão é que Babel não é uma história sobre Deus punindo seres humanos por construírem algo alto demais. Se fosse, a estação espacial seria mesmo um problema para a narrativa.

Em Gênesis 11, a torre aparece dentro de uma história sobre unidade, poder, centralização e soberba humana: “façamos para nós um nome”. O problema narrado não é a altura da construção, mas aquilo que ela representa.

E há outro detalhe: o próprio texto não diz que Deus “destruiu a torre”. Ele diz que Deus confundiu a linguagem e dispersou o povo. A torre sequer é descrita como tendo sido derrubada por Deus.

Portanto, comparar Babel com uma estação espacial é como comparar uma parábola sobre poder e pretensão humana com uma obra de engenharia. A estação espacial não está “tentando chegar até Deus”, e seus astronautas não estão construindo uma civilização para fazer um nome para si diante de Deus.

Se alguém entende Babel literalmente como “Deus impediu o homem de subir ao céu”, então realmente terá de explicar por que foguetes não provocaram a mesma reação. Mas isso é um problema da interpretação que a pessoa escolheu, não uma contradição que o texto necessariamente apresenta.

A estação espacial não refuta Babel. Ela apenas mostra como fica estranha uma leitura de Babel que transforma “céu” em coordenada geográfica.

sábado, 19 de setembro de 2026

Jardim Regado

Por que meu jardim é bonito?
Porque em cada cova de perda,
plantei uma flor.

Onde a vida abriu um buraco,
não deixei apenas a terra nua.
Coloquei uma semente,
molhei com lágrimas
e esperei.

Plantei flores sobre despedidas,
sobre portas que se fecharam,
sobre pessoas que partiram,
sobre sonhos que morreram
antes de chegar ao fim.

Plantei flores onde fui ferida,
onde fui esquecida,
onde precisei recomeçar
sem entender por quê.

Hoje, quando alguém olha meu jardim
e pergunta de onde vem tanta beleza,
não vê as covas escondidas
sob as raízes.

Não sabe quantas vezes
precisei ajoelhar sobre a terra
para chorar o que perdi.
Não sabe quantas flores
nasceram de lágrimas.

Porque as perdas
não são a última palavra.

Onde me tiraram algo,
nasceu sabedoria.
Onde me faltou amor,
aprendi a acolher.
Onde me feriram,
aprendi a não ferir.
Onde precisei recomeçar,
descobri que ainda havia vida
debaixo da terra.

E assim,
sem perceber,
fui transformando meu próprio luto
em primavera.

Talvez seja isso
que a Graça faz conosco:

não impede que a terra seja revolvida,
não devolve todas as flores que perdemos,
não apaga as marcas das estações.

Mas faz até aquilo que doeu
cooperar para o bem.
Às vezes, para o meu bem.
Às vezes, para o bem de quem chega
e encontra sombra debaixo das minhas árvores.

Porque meu jardim não é apenas
o lugar onde sobrevivi às minhas perdas.
É também o lugar
onde outros podem descansar.

Meu jardim é abrigo.
Para mim.
E para o próximo.

É  a beleza que eu não plantei sozinha:
O que chamei de perda, 
a Graça fez florescer

Governada por dentro

Eles tentam me rotular, mas fracassam.
Ficam confusos porque sou o que sou, sem dar muita importância aos dedos em riste.

Há muito tempo sou governada pelo Reino estabelecido do lado de dentro. Por isso, já não me envolvo demais com aquilo que os outros classificam como certo ou errado, aceitável ou condenável.

Minha Lei é o amor.
Meu único parâmetro é Cristo.

Se agrado ou desagrado, isso se tornou pouco relevante. O que me move é algo mais profundo: o Espírito que testifica dentro de mim que pertenço a Ele.

Eu convido, mas jamais insisto.
Não forço ninguém a nada, muito menos a caminhar comigo.

Não me iludo.
Não me violento para caber.
Não permaneço onde já não preciso permanecer.
Fico o tempo necessário para dizer a que vim  e sigo.

Aprendi que liberdade não é fazer tudo o que se quer, mas já não precisar viver para corresponder às expectativas dos outros.

E tem dado certo.

Nunca fui tão feliz sendo simplesmente quem sou diante de Deus.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Agora que já sei quem sou


Depois dos 50, a consciência do não pertencimento vira um tanto faz.

Parece que a invisibilidade nos garante o direito de ser e fazer o que quisermos.

As pessoas deixam de nos observar e, muitas vezes, deixamos de importar.

Se nos arrumamos ou se nos descuidamos, ninguém quer saber.

Ninguém mais parece interessado em ouvir o que temos a dizer.

O mercado de trabalho se fecha.
O corpo perde o vigor.
Envelhecer machuca e liberta.

A gente perde a necessidade da aprovação, mas também perde a atenção.

E há uma estranha ironia nisso tudo: quando finalmente aprendemos a não viver para sermos vistos, descobrimos que quase ninguém mais está olhando.

Já não precisamos provar quem somos.
Mas também já não há tanta gente querendo descobrir.

Depois dos 50, talvez a liberdade tenha mesmo esse preço: a gente deixa de ser importante para muitos justamente quando começa, finalmente, a ser importante para si.

Agora que já sei quem sou, ninguém mais quer saber. E pela primeira vez, isso não precisa me impedir de ser.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Deus no pequenino

A única forma de nos relacionarmos verdadeiramente com Deus é também reconhecê-lo no próximo. É mentiroso aquele que diz amar a Deus enquanto negligencia o outro.

O homem que ora três vezes por dia e jejua toda semana não demonstra, por isso, maior intimidade com Deus do que aquele que acolhe, alimenta, hospeda e supre as necessidades do outro.

Quem serve a um pequenino, serve a Cristo.
Quem o negligencia, despreza a Cristo.

Não estou pregando ativismo, como se a quantidade de coisas que fazemos pudesse nos aproximar de Deus. Falo do amor que se torna dom, como resposta àquilo que recebemos primeiro.

Porque o amor recebido não permanece estéril.
Ele transborda.

E quando a oração não alcança o próximo, o jejum não produz misericórdia, a devoção não produz acolhimento e a fé não se transforma em cuidado, todo esse esforço corre o risco de ser apenas religiosidade.

Deus não precisa da nossa performance religiosa. O outro precisa do amor que dizemos ter recebido de Deus.

Nossa relação com Deus se torna visível no modo como tratamos quem nada pode nos oferecer em troca.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Verbo encarnado

Jesus não deixou cartas,
nem escreveu com as próprias mãos
um tratado sobre o amor,
nem deixou em pergaminhos
as palavras de sua voz.

Não há uma letra sua
guardada entre páginas,
nem um documento assinado
para provar o que ensinou.

Mas há algo mais profundo
que tinta sobre o papel:
há uma lei viva,
escrita por dentro,
onde o Espírito habita
e faz morada.

É escrita no coração
de quem foi alcançado pela Graça,
e ali, silenciosamente,
o Amor começa a governar.

Porque Cristo não veio apenas
para deixar palavras a serem lidas.

O Verbo encarnado
veio fazer de nós
palavras que podem ser vividas,
verdadeiras cartas vivas.

E onde seu Espírito habita,
a lei deixa de ser cobrança
e se torna natureza renovada;
deixa de apenas apontar o caminho
e começa a conduzir os passos.

Sem tábuas nas mãos,
sem letras de pedra,
gravada no coração.

Jesus não escreveu um livro.
Escreveu-se em pessoas

O presente para quem já tem tudo

Imagine que você vai presentear alguém que já tem tudo.

Diante disso, alguém pode pensar: “Posso dar qualquer coisa. Não fará diferença mesmo.”

Outro, embora saiba que seu presente não acrescentará nada ao que aquela pessoa já possui, pode desejar caprichar. Não para suprir uma falta, mas porque aquilo que oferece representa o que sente.

Deus é pleno em si mesmo. Nada do que fazemos pode acrescentar ou retirar algo dEle. Nossa obediência não O torna mais Deus; nossa desobediência não O torna menos Deus.

Mas a maneira como entregamos nossa vida revela muito sobre a nossa fé.

Alguns, por acreditarem que nada fará diferença, vivem de qualquer maneira e não se importam com as próprias escolhas.

Outros, reconhecendo a grandeza daquele a quem pertencem, desejam oferecer o melhor que podem,  não para conquistar Seu favor, nem para pagar uma dívida, mas porque amam e são gratos.

É a existência oferecida como sacrifício vivo.
Não porque podem dar algo que Deus necessite, mas porque descobriram que a Graça não produz descuido; produz gratidão.

O primeiro pensa: “Já que Deus não precisa de nada, tanto faz o que eu ofereça.”

O segundo compreende: “Justamente porque Ele não precisa de nada, quero oferecer a Ele aquilo que tenho: minha própria vida.”

Não é sobre dar mais para ser mais amado.
É sobre amar mais porque já se sabe amado.

Evangelho não é um convite, é um anúncio

O Evangelho não diz que você precisa aceitar Jesus na sua vida.

A Boa Nova consiste em anunciar que, em Cristo, você já foi aceito na Vida  e que está consumado.

Isso não deveria produzir peso, mas regozijo. Não cativeiro, mas liberdade. Não desolação, mas paz. Não uma vida presa ao passado, mas novidade de vida. Não obras vergonhosas para tentar merecer algo, mas frutos de justiça que brotam de uma vida alcançada pela Graça.

A questão, então, não é: “Será que Deus vai me aceitar?”

A Boa Nova responde: “Em Cristo, Deus já reconciliou consigo o mundo.”

E quando isso é compreendido, a vida deixa de ser uma tentativa desesperada de conquistar aceitação e passa a ser uma resposta agradecida ao Amor que nos alcançou.

A Graça não nos chama para conquistar um lugar em Cristo. Ela nos revela que, em Cristo, já fomos encontrados.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

O que respondi à Josi num grupo hoje

O que ela perguntou 

Teístas me expliquem uma coisa ..
Vocês não acham confuso acreditar que devem adorar apenas um único Deus mas ao mesmo tempo acreditar que Jesus é Deus, Deus é Deus e o Espírito Santo é Deus? Tipo 3 deuses embutidos. 
Outra coisa que eu queria saber.

Vocês dizem que Deus é amor que Deus deu livre árbitro mas condena os outros ao inferno, então onde está o amor divino ? Onde está o livre árbitro? Deus então tem prazer na vingança?

Outra dúvida também.. 
Se Deus criou o ser humano para viver na terra pq as pessoas vão morrer e viver no céu? Então o planeta terra não faz sentido algum. As pessoas já deveriam ter nascido no céu, não precisavam se tele transportar. 😅

Desanimei de ser católica e evangélica por causa dessas questões sem sentido.

Não concordo com os ateus sobre a inexistência de Deus, mas não discordo de que tem coisas que vocês não param para pensar que não faz sentido nenhum na interpretação biblica que voces aprenderam. Kkkk

O que respondi

Oi, Josi.
1- o homem não consegue definir nem a si mesmo, nem o próximo, quanto mais definir a divindade. Tentar enquadrar Deus num formato qualquer, ainda vai deixar a desejar. O que a Bíblia diz a respeito, é que Jesus é Deus encarnado, é a revelação plena do que se pode conhecer de Deus, do que cabe nos nossos conceitos, do que está ao nosso alcance, porque Deus é Espírito, é incorpóreo, ocupa toda a imensidão e ao mesmo tempo habita em templos de carne, porque essa é a forma de ficar século após século em nós. No mais é pretensão humana, porque uma mente temporal, limitada e finita, não cabe tudo o que o Eterno é. Um dia saberemos.

2- Deus não condena ninguém arbitrariamente, ao contrário, Ele oferece a justificação pela Graça, a separação, portanto, não é uma vingança divina, mas a consequência da escolha humana. O que chamam de inferno é a prisão para o diabo. Não existe esse formato baseado no "Inferno de Dante" e usado pelos sistemas religiosos para castrar pessoas. Isso é baseado na tradição histórica e crença popular. Quanto a separação, isso as próprias pessoas escolhem. Ninguém vai ser obrigado a ser um com o Deus a quem rejeita. A pessoa não é condenada por não conseguir produzir justiça suficiente para Deus; ela permanece naquilo que escolheu ao recusar a justiça oferecida em Cristo. A morte é para todos, a ressurreição é para quem vive com essa esperança.

3- Segundo a Bíblia, a Terra será restaurada e a Nova Jerusalém descerá do céu. É por isso que se diz que Jesus vai voltar. Esse negócio de viver para sempre no céu é interpretação religiosa, até porquê definem eternidade como um tempo que não tem fim. No meu entendimento, eternidade é o não-tempo, onde nada se deteriora e nem acaba e por isso todos são plenos.

Também circulei por sistemas religiosos, que nunca responderam nada, até porquê tentam imitar o judaísmo, que o próprio Jesus desconstruiu.

O Evangelho não é um convite para alguém aceitar. É o anúncio de que o preço foi pago e fomos aceitos em Cristo, que pagou nossa dívida. Quem crê, se alegra e vive com essa esperança.